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Manhita

Luís

A vida do Luís gira em torno de cantar fado e dar vida às marionetas na Companhia de Teatro do Algarve. A sua energia vibrante e o seu sorriso só o podem fazer sorrir de volta para ele. O caminho artístico que Luís escolheu é uma forma de expressar os seus sentimentos e emoções e partilhá-los com aqueles que em algum momento sentiram o mesmo.

1. Para aqueles que não te conhecem, como te definirias? Quem é o Luís?

Costumo dizer às pessoas que precisam de me ver cantar para me conhecerem de imediato. Há muitas coisas a acontecer dentro da minha mente, mais do que o meu corpo pode realmente mostrar. Muitas vezes tenho ideias muito criativas e loucas. A música e o fado extraem tudo e normalmente sou muito feliz. Tento sempre encontrar uma forma de resolver as coisas. Sempre que há um problema, há uma solução.

2. Disseste numa entrevista que uma vez foi a um espectáculo de fado e, depois disso, começaste a cantá-lo. Podes dizer-nos mais sobre isto?

Eu estava na escola dominical na igreja e os jovens organizavam sempre um espectáculo de comédia no Natal. Neste espectáculo específico, estava a representar uma fadista que ia cantar para uma audiência. Nessa altura, eu já tinha começado a ouvir fado, especialmente Dulce Pontes. Cantei uma canção de fado com base numa gravação que ela tinha feito. Na verdade, disse as palavras todas erradas, mas tentei compensar com a voz. Havia um fadista, Helder Ceolho, a ver aquele espectáculo de comédia e ele disse que em algumas partes, quando ampliava a minha voz, fi-lo ainda melhor do que um fadista. Eu tinha cerca de 20 anos de idade nessa altura. Falou-me também de um concurso amador em Albufeira, onde eu deveria cantar 2 canções de fado. E eu cantei. Foi assim que tudo começou. 

Eu estava a ouvir Amália Rodrigues, Fernando Farinha, e tantos outros, mas cantar fado era outra coisa. Costumava dizer a mim próprio “gosto de cantar, mas quem penso que sou para acreditar que consigo fazer as pessoas sentirem o que eu sinto quando ouço grandes fadistas? Eu não tenho isso”, pensava eu. Só quero contar a minha história sobre algo que vivi, e talvez os que me ouvem tenham vivido da mesma forma que eu – vamos partilhar essa emoção juntos. 

Mesmo desde tenra idade, comecei a escrever letras e a dá-las a outros cantores porque eu queria. Fi-lo porque apenas me aconteceu ter a inspiração. Mas quando se tratava de encomendar trabalho, isso não era realmente o meu forte. Alguém disse uma vez que a criatividade é algo encontrado no topo da montanha e que há algumas pessoas ou animais lá em cima rolando as pedras da criatividade pela montanha abaixo, e todas as pessoas dos campos artísticos descem da montanha. Os primeiros rolam as pedras da criatividade e, se estiveres lá no momento certo, apanha-las e depois podes usá-las. Caso contrário, outra pessoa irá apanhá-las. E eu penso que não apanho todas as pedras. 

3. O que é o Fado para si? 

O fado é sobre histórias, sobre a vida das pessoas, por isso qualquer pessoa que tenha vivido uma certa experiência tem algo a dizer. Há apenas 2 coisas que é preciso para ser cantor ou fadista – cantar no tom certo e ter o ritmo certo. Isso é algo que não se pode aprender, vem naturalmente. 

O fado é algo que está dentro de si e que tens de pôr para fora. É uma forma de estar na vida, de olhar para a vida; não é melhor do que qualquer outra coisa, é apenas diferente. Tentei parar de cantar algumas vezes, mas não havia maneira de o conseguir fazer. Na verdade, senti-me mal, triste, ansioso, até mesmo zangado, por vezes. 

Quando a pandemia chegou, não tive qualquer trabalho desde Março até quase Setembro. Durante este Verão, fui cantar nas ruas de Faro. Só precisava de cantar para as pessoas, não para as paredes. Não se trata de mim quando canto, mas de mim em ligação com outra pessoa. 

O fado é um estado de alma e de espírito. Penso que se pode melhorar a forma como se canta, mas não se pode aprender fado. Dizemos “Fado não se ensina, Fado aprende-se”

4. O que te inspira a escrever canções?

O fado tem a ver com emoções e histórias de vida. Existem cerca de 400 canções de fado tradicionais e pode-se colocar novos poemas nessas canções e é assim que o fado continua. Outra coisa é que as canções têm uma melodia específica e é preciso fazer com que a letra combine com a canção. Não têm um refrão, pelo que se pode escrever quantas letras quiser sem repetir nada. O que eu faço é ouvir uma canção de fado tradicional, que me lembra uma história minha ou uma emoção e eu só quero escrever a minha história sobre essa canção, normalmente alguém já viveu isso antes também. Não me interessa se escrevo como mulher ou como homem. 

Até agora, nunca escrevi nada da perspectiva de um homem, como “quero-te, mulher, nos meus braços”. Eu escreveria “quero-te nos meus braços”, e essa pessoa pode ser qualquer um. As minhas letras são neutras e por vezes até femininas, mas não me importo. 

Penso que a forma como as mulheres sofrem é mais bela do que a forma como os homens o fazem. As mulheres têm aquele momento de reconhecer a dor e a perda, e eu gosto disto, e também do facto de ficarem fortes mais depressa do que os homens. 

Não é que a sexualidade das pessoas deva ser algo público, mas realmente não me importo de dizer que sou gay. As pessoas já o sabem e é apenas a minha sexualidade, não tudo o que eu sou. E especialmente eu a dizer estas coisas sobre os homens – talvez faça sentido ser gay, mas é apenas o que é. Não estou a falar da personalidade das pessoas, são apenas sentimentos, emoções, momentos. Claro, um homem pode ser tão emocional como uma mulher.

5. Antes de se tornar fadista, completaste um curso de teatro. Pode dizer-nos o que está a fazer na Companhia de Teatro do Algarve?

Com canto e representação é 50%-50%, mas por vezes talvez seja 75%-25%. Gosto de teatro e de estar em palco, e quando segui o curso aqui, na ACTA, em 2003, tive um grande professor, José Louro. Ele faleceu há alguns anos, mas na realidade foi o fundador do ACTA no Algarve. Uma vez, estávamos a fazer exercícios, e tivemos de escrever um guião. Eu escrevi algo e não pusemos os nossos nomes no papel. No final, ele perguntou “Quem escreveu isto?”, falando sobre o meu guião. Ele disse “Podes escrever coisas”. Foi aí que comecei a escrever. Depois, continuou a dizer-me – “És um cantor, não um actor”; “És um cantor que sabe representar, não um actor que sabe cantar”. 

Eu gosto de estar no palco para cantar. Também tenho prazer em representar, mas quando estou lá para cantar, é aí que me sinto realmente eu próprio. É o lugar para onde vai a minha alma. Quando se trata de teatro, tenho de praticar mais do que um actor normal e não me importo. O que me facilita agora é que sou um marionetista, e isto dá-me muito prazer. 

Gosto muito da interação com as marionetas, sinto-me confortável com isso. Por vezes, entro como uma pessoa que interage com as marionetas, e adoro-o, porque acredito nelas. Agora, estou a fazer um espectáculo com a minha colega, Raquel, e Adriana, que é a técnica. Por vezes, sou o amigo da marioneta e toco guitarra, canto e rio com ela, e nunca olho para Raquel. Apenas olho para a marioneta e falo com ela. Sei que a Raquel está ao meu lado, mas quando o faço, acredito na Bia (nome da marioneta), e nunca falo com Raquel. Era o mesmo com os Muppets quando eu era criança. Acredito que eles são reais. Mesmo quando vou ver um espectáculo dos meus colegas, olho para as marionetas e acredito nelas.

6. O que é preciso para ser um marionetista? 

Acreditar nas marionetas. É um pouco difícil de explicar. Normalmente, digo às crianças – “Vão ver-nos com as marionetas, porque elas não se movem sozinhas. Tem de haver alguém que faça a marioneta ganhar vida”. Se as pessoas olharem apenas para as marionetas, estás a fazer a coisa certa. Se elas dizem: “Agora ele está a mexer-se”, “Agora ele está a fazer a voz da marioneta”, então algo não está a funcionar. Só é preciso descobrir como funciona a marioneta, porque há alguma vida dentro dela.

7. Como é que as tuas duas paixões – fado e teatro – funcionam juntas? 

Quando vou cantar, crio esta personagem; as pessoas conhecem-me pelo lenço, eu canto sempre com um lenço. Se tenho um evento, preciso de certas roupas para ir ao palco – é sobre a personagem que estou a representar. Todo o meu conhecimento do teatro dá-me ferramentas incríveis para ser fadista e saber estar no palco. 

As pessoas vêem o fado como algo para o grande palco, mas não é assim. Isto acontece por causa da evolução dos tempos. Mais pessoas querem ver-te cantar, por isso vais a um grande palco ou estádio, e transformam-se nestes concertos massivos com milhares de pessoas. No entanto, o fado é algo das ruas. Não é como as bandas de rock, que vivem em digressões e precisam disto. Se for a Lisboa, verá muitos fadistas que nunca estiveram num palco, mas que são tão bons.

8. Está mais interessado no fado tradicional ou na experimentação de novas formas de fado?

É bastante controverso. Algumas pessoas dizem – “Oh, é a sua opinião”. Algumas coisas na vida não são as nossas opiniões, mas apenas como elas são realmente, e podes aceitá-las ou não. Podes criticá-las se quiseres, mas elas não vão mudar só porque pensas de forma diferente ou porque as criticas. É o mesmo com o fado. Não é mais que qualquer outro tipo de música, mas é diferente, especial, e único. É basicamente uma voz, uma guitarra portuguesa e uma guitarra clássica. O fado é património mundial devido a esta simplicidade. Podes acrescentar muitas coisas para o tornar mais rico, mas que não o vai tornar melhor. Amália correu o mundo inteiro sem nada mais do que uma guitarra portuguesa e uma guitarra clássica. Ela nunca pegou na bateria, violoncelo, piano. Nunca. Isto é uma coisa. Depois, se quiser mudar alguma coisa, talvez possa acrescentar mais instrumentos, mas isso vai mudar o som. Talvez a voz venha em segundo lugar e também não é esse o objectivo. 

Penso que as pessoas precisam de fazer o que as faz felizes. No que me diz respeito, sim, sou um fadista tradicional, e não se trata apenas de uma afirmação. Eu adoro realmente o fado tradicional. Hoje posso ouvir um álbum de um jovem fadista, mas preciso de ouvir pelo menos uma canção de fado tradicional. Mesmo que as pessoas façam projetos com a intenção de fazer algo diferente com o fado, nunca vão muito longe disso. Por exemplo, António Zambujo. Era um cantor de fado muito tradicional, mas depois decidiu trazer algo diferente em relação à forma como canta. Penso que quando se quer mudar a forma como se canta um determinado género, seja fado, rock, jazz, ou soul, é importante conhecer primeiro a sua língua.

9. Estamos a fazer esta entrevista no Teatro Lethes, o que é que este lugar significa para si? 

Eu sou apaixonado por este lugar desde que era criança. Por vezes, costumávamos apresentar aqui as peças que fazíamos na escola dominical. Este lugar era tão grande para mim, com muitas bancas, caixas e pessoas e tudo era ouro. Parecia mágico. Era “O” teatro. Quando eu tinha cerca de 13-14 anos, costumava vaguear pela cidade e visitar todo o tipo de lugares culturais, e o Teatro Lethes também. Habituaram-se tanto a mim que até me deixavam participar nos ensaios.

Por volta de 2002, eu estava desempregado, e havia um programa do estado português ao qual se podia candidatar. Recebia 50% do salário do Estado e 50% da empresa. A Câmara Municipal propôs-me vir trabalhar no Teatro Lethes como técnico de palco. Fi-lo durante 2 anos. Depois, enquanto trabalhava para uma exposição da ACTA, vi um cartaz a anunciar um curso de representação. E disse para mim mesmo “Eu consigo fazer isto”. Alguns anos mais tarde, em 2015, precisavam de um produtor, e eu tinha regressado do País de Gales para as férias. Candidatei-me, consegui o emprego, e essa é a história de eu ter regressado para viver em Faro. 

No País de Gales, trabalhei durante 3 anos num teatro nacional, Wales Millennium Centre. É uma Opera House, um sítio grande, com 7 andares, e eu estava a trabalhar no departamento educacional, com crianças. Adorei!

10. O que pode Faro trazer para o fado e para o teatro?

Faro é uma cidade bastante pequena, o que é bom, mas se houver quatro espectáculos numa noite em Faro, não vai ter casa cheia em todos eles. Não há gente suficiente para isso, e isto não é uma crítica, é apenas o que é. Penso que todos os locais e associações culturais deveriam reunir-se e fazer um programa conjunto. Acredito que todos ganhariam com isto, e talvez a atividade fosse diferente, e não me importo de dizer, melhor. Não precisamos de competir uns com os outros; é o contrário, precisamos de trabalhar em conjunto.  

No País de Gales, quando alguém tinha uma ideia para um projecto, não a colocaria em prática simplesmente. Eram do tipo “Eu tenho esta ideia. Deveríamos juntar-nos e falar sobre isso?”. Trata-se apenas de trazer ideias para a mesa e ver se elas vão a algum lado. 

Em Faro, penso que temos muito boas ideias individuais, mas por vezes falta-nos uma ideia global.

11. O que é que mais te agrada na cidade de Faro?

Estar ao lado do mar. Gosto da luz, do ar, e gostava de poder viver na praia

12. Qual seria a banda sonora da tua história de vida?

Amália Rodrigues – Estranha forma de vida.  



© Photos by Beatrice Dragusanu